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A verdade como primeira (e última) linha de defesa da Europa

publicado in Jornal Observador, 02/11/25

Quando referimos a defesa europeia, a imaginação coletiva evoca, imediatamente, tanques, sistemas antimíssil ou de ciberdefesa. Raramente pensamos numa torre de transmissão radiofónica. No entanto, a segurança das democracias europeias depende, atualmente, tanto da capacidade para transmitir informação credível quanto da capacidade para deter ameaças militares convencionais. Os media públicos, da televisão à rádio, das plataformas digitais aos canais de comunicação regionais, são, simultaneamente, a primeira linha de defesa contra a desinformação e, em particular no caso da rádio, a última linha de comunicação quando todas as outras falham.

A fronteira da Europa já não coincide com a sua geografia. Estende-se pelo espaço informativo onde se trava, diariamente, uma guerra não declarada pela confiança dos cidadãos. A verdade tornou-se um ativo estratégico que sustenta a confiança pública e, com isso, a própria legitimidade das nossas democracias. A rádio e a televisão públicas devem desempenhar, neste contexto, um papel insubstituível: fornecer informação verificada e contextualizada, isenta de algoritmos que amplificam a indignação e distorcem a discussão pública. Enquanto as redes sociais fragmentam audiências em câmaras de eco ideológicas, os media públicos têm de manter um espaço comum de debate público.

Na Ucrânia, a Suspilne, o operador público de rádio e de televisão, provou ser tão estratégica quanto qualquer batalhão. Quando mísseis russos atingem infraestruturas civis e campanhas de desinformação tentam semear pânico, são os canais de comunicação públicos que mantêm a população informada e resiliente. Não é propaganda de Estado, mas serviço público na sua forma mais pura: informação que capacita os cidadãos para tomarem decisões informadas. Se a desinformação é a arma preferencial das guerras híbridas do século XXI, os meios de comunicação públicos independentes são sistemas de “defesa antimíssil” do espaço cognitivo.  Entre estes media, a rádio destaca-se por uma característica única: quando falhar tudo o resto, ela continua a transmitir.

Imaginemos um cenário que o recente apagão em Portugal tornou menos distante: um ataque cibernético massivo derruba as redes elétricas em várias cidades europeias. As comunicações digitais colapsam. Os telemóveis deixam de funcionar. A Internet desaparece. Nesse momento, apenas a rádio continua a transmitir, com transmissores alimentados por geradores de emergência ou por simples baterias, alcançando recetores que não dependem da Internet nem de redes móveis. É a voz da informação que resiste e atravessa o caos.

Na Suécia e na Finlândia, este não é exercício teórico. Os sistemas de radiodifusão pública estão integrados formalmente nos planos nacionais de preparação e resposta a crises, não como complemento opcional, mas como pilar estruturante da resiliência nacional. Portugal, tal como outros países europeus, enfrenta com frequência crescente incêndios devastadores, cheias repentinas e eventos meteorológicos extremos. Quando as populações precisam de instruções claras, evacuar ou permanecer, que estradas estão cortadas, onde encontrar apoio, a rádio é, frequentemente, a única opção viável para comunicação em tempo real.

O Regulamento europeu sobre a Liberdade dos Meios de Comunicação Social estabeleceu salvaguardas importantes para a independência editorial. No entanto, salvaguardar a independência não é suficiente se não garantirmos, igualmente, a sustentabilidade financeira, a proteção física das infraestruturas e a capacitação técnica para operar em situações de crise. O próximo Quadro Financeiro Plurianual da União Europeia (UE), o futuro Escudo Europeu da Democracia e a implementação da estratégia de preparação da UE devem integrar, explicitamente, a resiliência dos sistemas de radiodifusão pública.

Que tipo de sociedade queremos ser se falhar tudo o resto? Uma sociedade em pânico, fragmentada e vulnerável a rumores? Ou uma sociedade que mantém canais de comunicação baseados em factos e responsabilidade coletiva? Como referiu Sauli Niinistö, “a resiliência não é apenas sobre o que um Estado pode fazer; é sobre o que uma nação está disposta a suportar”. Essa disposição constrói-se, diariamente, através de instituições sólidas e de um contrato de confiança entre os cidadãos e o Estado.

Defender a Europa não é apenas questão de arsenais ou de alianças militares. É, simultaneamente,  defender a nossa capacidade coletiva para saber o que é verdade, para comunicar em momentos críticos, para manter coesa uma comunidade política mesmo quando forças internas e externas tentam dividi-la. É uma condição de sobrevivência democrática.

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