publicado in jornal Público, 03/07/26
O desporto era, em tempos, visto como algo que existia acima da política. Os recentes Mundiais e as crescentes disputas geopolíticas em torno das competições globais mostram que isso já não é verdade.
Hoje, o desporto não é apenas entretenimento. É poder, influência e negócio. Os direitos de organização, os investimentos apoiados por Estados e a crescente preponderância comercial de entidades reguladoras como a FIFA moldam cada vez mais a política internacional e os mercados globais. O que antes era sobretudo uma atividade social e cultural tornou-se uma indústria global de muitos milhares de milhões de euros.
Precisamente porque o desporto desempenha um papel social tão importante, a governação do desporto e a questão de quem detém o poder no seu seio tornaram-se matérias de interesse público. A confiança no desporto depende não só do que acontece em campo, mas também de saber se as estruturas por trás dele são justas, transparentes e responsáveis.
Como alertaram recentemente organizações de consumidores numa carta conjunta a Ursula von der Leyen, os eventos desportivos ao vivo são definidos por uma escassez estrutural: um organizador, um local, uma data – e muitas vezes uma só plataforma de venda de bilhetes.
Ao mesmo tempo, está a emergir outra tendência preocupante: as tentativas de realizar jogos de ligas nacionais no estrangeiro. Os clubes de futebol europeus estão enraizados nas comunidades locais, nas tradições e nos seus adeptos. Transformar jogos de ligas nacionais em eventos comerciais itinerantes arrisca enfraquecer a ligação entre os clubes e as comunidades que os construíram. Os adeptos não devem ser tratados como secundários face a estratégias de marketing globais.
O que estamos a observar em torno de eventos como o Mundial não é, portanto, uma questão isolada de consumo, mas parte de um desafio estrutural mais amplo. Onde o poder económico está concentrado e os adeptos não têm alternativas significativas, a ideia de que o desporto se pode simplesmente autorregular já não é sustentável.
Para o PPE, isto reforça a necessidade de uma aplicação mais clara e consistente do direito da UE ao desporto.
Hélder Sousa Silva e Bogdan Zdrojewski
