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Europa e Brasil: Caminhos Diferentes, um Mesmo Destino Sustentável

(Por Paulo Cunha e Hélder Sousa Silva, Deputados ao Parlamento Europeu)

publicado in Jornal de Negócios, 22/10/25

O setor automóvel vive uma das maiores transformações da sua história. Entre a descarbonização e a digitalização, o desafio não é apenas tecnológico — é político, económico e social. Exige visão estratégica, realismo ambiental e, sobretudo, ambição industrial.

Foi precisamente este o espírito do Diálogo União Europeia–Brasil sobre a Indústria Automóvel, realizado em Bruxelas, que juntou decisores políticos, empresas e especialistas de ambos os lados do Atlântico para discutir “Caminhos para uma Competitividade Sustentável”. Um debate oportuno, numa altura em que a Europa enfrenta o risco de transformar metas legítimas em fardos regulatórios, enquanto o Brasil trilha um percurso distinto, mas complementar.

A União Europeia, guiada pelo Pacto Ecológico Europeu, tem enveredado por uma via assente em metas rigorosas e num plano decidido de eletrificação do parque automóvel. Esta estratégia tem permitido avanços significativos na redução de emissões, tem estimulado cadeias de valor inovadoras e cria novos empregos verdes. Porém, não deixa de levantar dilemas quanto à robustez das cadeias de abastecimento, aos custos da transição para os consumidores e para a indústria, e à dependência tecnológica de mercados externos. A transição não pode ser feita à custa da indústria europeia, nem ignorando a diversidade de soluções que podem contribuir para a neutralidade carbónica.

O Brasil, com o programa MOVER – Mobilidade Verde e Inovação, oferece um exemplo de políticas públicas que alia pragmatismo ambiental a ambição económica. A abordagem neutra em termos tecnológicos permite que biocombustíveis, híbridos e elétricos coexistam, incentivando a inovação e a atração de investimento. O objetivo é comum — reduzir emissões — mas o método é flexível e adaptado à realidade industrial e energética do país. Recentemente, e na antecâmara da COP30, o Brasil, juntamente com India, Itália e Japão, lançaram uma iniciativa chamada de “Compromisso de Belém pelos Combustíveis Sustentáveis”, que pretende unir esforços para quadruplicar a produção e o uso de combustíveis sustentáveis até 2035.

Esta diferença de abordagem merece reflexão na Europa. É tempo de avaliarmos o caminho seguido, se este é o mais equilibrado e justo. Não se trata de recuar nas metas climáticas nem muito menos na eletrificação, mas de assegurar que o meio escolhido não se transforma num fim em si mesmo. A transição deve ser neutra tecnologicamente, mas também económica, social e territorialmente sustentável.

A indústria automóvel europeia representa milhões de empregos diretos e indiretos, é motor de exportações e de inovação tecnológica. As empresas precisam de previsibilidade regulatória e tempo de adaptação. Precisam de regras claras, mas também de confiança para investir em soluções diversas — desde os combustíveis alternativos às novas cadeias de valor da mobilidade elétrica.

A cooperação entre a União Europeia e o Brasil pode ser uma oportunidade estratégica para ambos. Um diálogo que una a inovação europeia e a experiência brasileira com biocombustíveis pode gerar padrões globais mais equilibrados, com base em avaliações de ciclo de vida (LCA) e não apenas em métricas de emissões à saída do tubo de escape.

O futuro da mobilidade sustentável não será alcançado por decreto, mas pela capacidade de conjugar ambição climática com liberdade tecnológica e competitividade industrial. O sucesso dependerá da abertura ao diálogo, da escuta às empresas e da valorização da ciência sobre a ideologia.

Europa e Brasil mostram que há vários caminhos possíveis rumo ao mesmo destino: um setor automóvel mais limpo, inovador e competitivo. O essencial é garantir que, ao acelerar a transição verde, não deixamos a nossa indústria para trás.

 

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