publicado in Observador, 23/11/25
A música é uma das mais profundas e antigas manifestações da condição humana. Desde os primeiros instrumentos musicais rudimentares até às mais complexas composições contemporâneas, ela tem acompanhado a evolução das sociedades, servindo como linguagem universal capaz de unir pessoas, celebrar momentos e expressar sentimentos.
A importância da música para o ser humano reside, precisamente, nessa capacidade de provocar emoções, criar identidade e fortalecer laços comunitários. Ela está presente nos rituais, nas celebrações, no quotidiano e nos grandes momentos históricos, constituindo-se como um património imaterial que molda culturas e gerações.
É por isso que a preservação dos arquivos musicais e dos instrumentos históricos assume um papel central na preservação da nossa herança cultural. Arquivos sonoros, em especial fonogramas; partituras manuscritas e vasta documentação musical; instrumentos construídos por gerações de artesãos são testemunhos insubstituíveis da criatividade humana e da riqueza cultural, das quais somos naturais herdeiros.
Sem a sua salvaguarda, perde-se não apenas o objeto físico, mas também o conhecimento, a técnica, a intencionalidade artística e a memória das comunidades que lhe deram origem. A musealização, associada à preservação e ao restauro, é, deste modo, um gesto de responsabilidade e respeito para com o passado e, simultaneamente, um investimento na formação das gerações futuras, que encontrarão nestes testemunhos uma fonte de estudo, de descoberta e de inspiração para novas composições ou novos instrumentos.
Neste contexto, a criação de um Museu Nacional da Música tornou-se uma necessidade que remonta ao reinado de D. Luis I. Por diversos motivos, esta ideia foi consecutivamente adiada, ou apenas parcial e temporariamente concretizada, como aconteceu até 2023, data em que encerrou as suas portas, a instalação provisória que funcionava na estação do Metropolitano de Lisboa no Alto dos Moinhos, para preparar a sua instalação definitiva no Real Edifício de Mafra, onde ontem reabriu portas, com grande esplendor e magnanimidade.
Um museu desta natureza possibilitou reunir num só espaço um património que se encontrava disperso, passando de 250 para mais de 500 peças e instrumentos em exposição, garantindo a sua conservação. Sobretudo, permite apresentar ao público a diversidade e a profundidade da história musical portuguesa, desde a música sacra aos instrumentos populares, das tradições locais aos grandes compositores nacionais e internacionais. Será um espaço vivo, interativo, capaz de acolher exposições, concertos, conferências, atividades pedagógicas e projetos nacionais e internacionais, fortalecendo o papel da música como elemento identitário e motor de desenvolvimento cultural, económico e turístico.
É neste contexto que a abertura do novo e definitivo Museu Nacional da Música, em Mafra, que teve lugar ontem, dia 22 de novembro, ganha um significado especial. Integrado no monumental conjunto do Real Edifício de Mafra, Património Mundial da UNESCO, um espaço profundamente marcado pela história da música portuguesa – basta lembrar o extraordinário conjunto único no mundo dos seis órgãos da Basílica, dos dois carrilhões, do fantástico acervo documental musical que reside na Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra – o novo museu representa um salto qualitativo na forma como Portugal cuida e valoriza o seu património artístico e cultural, desta feita o musical. Esta é, simultaneamente, uma oportunidade única para criar sinergias, valorizando o património edificado do Real Edifício de Mafra, o património móvel do Museu Nacional da Música e o acervo do Arquivo Nacional do Som, cujo novo edifício de se encontra em fase de construção na Vila de Mafra, para fidelizar públicos e para reforçar a atratividade destas coleções para visitantes e investigadores.
O novo espaço museológico permitirá acolher coleções de instrumentos raros, muitos deles únicos no mundo e considerados tesouros nacionais, como é o caso do violoncelo Stradivarius Chevillard, do Rei D. Luis I, do Cravo Antunes ou do Cravo de Pascal Taskin, construído a pedido do Rei Luis XVI, entre muitos outros. Adicionalmente, apresenta arquivos documentais de grande relevância, dos quais saliento peças de composição de autores como Fernando Lopes Graça, José Viana da Mota, entre muitos outros, e arquivos iconográficos, merecendo destaque as telas de José Malhoa, que consagram Beethoven e a Música. A sua instalação em Mafra reforça a ligação entre o património material e imaterial, num diálogo que enriquece o entendimento da nossa história.
No entanto, o impacto do novo museu não se limita à preservação e à exposição. A sua abertura representa uma oportunidade para dinamizar ainda mais a vida cultural não apenas de Mafra, mas de toda a Área Metropolitana de Lisboa e do país. Um museu deste tipo pode tornar-se um centro ativo de produção de conhecimento, abrindo portas à investigação, através da instalação, já em curso, em Mafra, do Polo de Ciências Musicais da Universidade Nova de Lisboa; ao restauro especializado, com a ampliação do número de empresas de restauro; a residências artísticas e à formação musical, através das escolas de música, dos conservatórios e do Centro Europeu de Musica, instalado em Mafra. Poderá, ainda, contribuir para dinamizar o turismo cultural, atraindo visitantes nacionais e estrangeiros interessados na singularidade do nosso património artístico e musical. Complementarmente, de forma ainda mais profunda, poderá reforçar o sentimento de pertença e de orgulho nas raízes musicais portuguesas, promovendo o diálogo entre tradição e contemporaneidade.
Num cenário global marcado por rápidas transformações, a música continua a ser um dos poucos elementos verdadeiramente universais, capaz de criar pontes e promover o entendimento entre os povos. Ao valorizar e preservar o legado musical português, em especial aquele que reflete a influência da cultura portuguesa nos quatros cantos do mundo, Portugal contribui, também, para o fortalecimento da cultura a nível europeu e mundial.
Museus dedicados à música ajudam a manter viva essa universalidade, mostrando que a expressão artística não é apenas entretenimento, mas, simultaneamente, memória, identidade, conhecimento e futuro. O novo Museu Nacional da Música, em Mafra, tem a capacidade de posicionar Portugal como um protagonista responsável e empenhado na salvaguarda, na preservação e na valorização do património musical europeu e mundial.
Celebrar esta abertura é celebrar a música enquanto força criadora, guardiã de memórias e instrumento de união. É reconhecer que preservar a música — nos arquivos, nos instrumentos, nos espaços e nas práticas — é preservar aquilo que nos torna verdadeiramente humanos. Paralelamente, é afirmar que, ao cuidar do nosso património musical, estamos também a escrever um capítulo importante para o enriquecimento cultural de Portugal.
Parabéns a todos os que tornaram possível este projeto, desde o Município de Mafra, Património Cultural, I.P., projetistas, empreiteiros, fiscalização, técnicos e mecenas. Uma palavra especial para o diretor do museu, professor doutor Edward Aires de Abreu, que foi pedra angular durante a fase de projeto, obra e musealização, assim como toda a equipa que o acompanha. Este é um projeto que passou por 6 governos nos últimos 12 anos, desde Pedro Passos Coelho e Jorge Barreto Xavier, passando por António Costa, Luís Filipe Castro Mendes e Graça Fonseca, Luís Montenegro, Dalila Rodrigues e Margarida Balseiro Lopes. Merecem todos um grande elogio por terem sabido interpretar a importância deste projeto para a Cultura e especialmente para a música portuguesa. Quando se tenta sempre ligar a Cultura à esquerda portuguesa e europeia, temos aqui um bom exemplo de um magnifico projeto que começou com um governo de centro-direita, foi muito acarinhado por um governo de esquerda e foi concluído por um governo de centro-direita. Felizmente, a Cultura não tem donos!
Em conclusão, devemos, igualmente, reconhecer que este é um excelente e belíssimo exemplo de aplicação dos fundos comunitários, neste caso do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), sem os quais este projeto, dificilmente, veria a luz do dia. Espero que, com estes bons exemplos, a União Europeia (UE) continue a apostar na Cultura como elemento de união entre os europeus e como um investimento fundamental para manter e consolidar o projeto europeu.
Nos últimos dias, na área da cultura, temos tido boas notícias que vêm da UE. A apresentação, recente, da Estratégia Europeia para a Cultura (Bússola Cultural), marca uma nova etapa na forma como a UE olha para a Cultura, reconhecendo o seu papel para a sociedade europeia e definindo um rumo, também a nível europeu, estabelecendo áreas e prioridades de investimento europeu. A proposta da Comissão Europeia para o próximo Quadro Financeiro Plurianual 2028 – 2034 reforça, substancialmente, o financiamento específico para a Cultura, no Programa Agora EU, bem como amplia os seus objetivos e âmbito de intervenção, face ao atual programa Europa Criativa. Não obstante a cultura ser uma competência dos Estados-Membros, a Comissão Europeia pretende ir mais longe e reconhecer que promover a Cultura e defender os valores e os princípios culturais, que são o fundamento da democracia europeia, é simultaneamente uma responsabilidade coletiva e da União Europeia. Trata-se de manifestar a importância da Cultura para a resiliência, coesão e futuro da nossa União.
Esta é a hora de celebrar.
Viva a Música e o seu novo Museu Nacional!
Viva Mafra, Viva Portugal e Viva a União Europeia!
