publicado in Observador, 25/01/26
A Europa enfrenta em 2026 aquilo que os estrategas militares chamam de uma ameaça de “múltiplos teatros”: crises simultâneas em geografias diferentes que exigem respostas coordenadas com recursos limitados. Não considero que 2026 seja o ano do colapso, mas sim o ano em que a liderança europeia deixa de poder fingir que pode escolher onde atuar. No seu livro recente, o Embaixador João Vale de Almeida descreve a última década como o “divórcio das nações”. O Brexit foi o primeiro grande sinal dessa tendência. Em 2026, a questão não se limita apenas à divisão interna da União. Há também um risco de divisão entre a Europa e os Estados Unidos. Isso pode levar ao fim da NATO. Nunca pensamos que isso poderia acontecer.
Atualmente, as linhas divisórias entre conflito e paz, entre economia e segurança, entre o que é interno e externo, são percorridas por métodos de coação constantes: sabotagem, ciberataques, desinformação, pressão sobre cadeias de abastecimentos, instrumentalização de movimentos migratórios e, se necessário, pelo menos até à data, recurso à força militar convencional. Em 2026, essas pressões vão se unir e a Europa será avaliada pela sua capacidade de enfrentar todas elas ao mesmo tempo.
O primeiro teatro é o Leste. Na Ucrânia, a guerra consolidou-se numa lógica industrial: quem sustenta o ritmo de munições, defesa aérea e reposição de perdas tem vantagem. A Europa fez progressos na produção de munições e no apoio financeiro e militar, mas o diferencial de escala com a Rússia continua a ser significativo e preocupante. O risco para 2026 não é um colapso súbito das linhas da frente, mas sim a fadiga conjugada coma deserção e fuga dos soldados da frente de batalha, bem como o desgaste político e industrial acumulado. Se alcançarmos essa situação de rutura total, a negociação deixará de ser uma opção e transformar-se-á numa imposição aos ucranianos. O acordo de paz, tarde ou nunca virá, pois, a maior parte dos ditos “obreiros da paz”, querem claramente a continuidade da guerra até à capitulação da Ucrânia, bem como, o desgaste, o enfraquecimento e até a “implosão interna” da União Europeia.
Esta realidade liga-se diretamente ao segundo teatro: a credibilidade da NATO e a autonomia de decisão europeia dentro dela. A Aliança tem reforçado a postura e vigilância no flanco oriental e tem pedido, com razão, um salto quântico no investimento em defesa aérea e antimíssil, porque a Rússia demonstrou que consegue penetrar o território aéreo europeu com os seus drones e mísseis. Em 2026, a credibilidade da dissuasão aliada vai medir-se pela força europeia. A pergunta é “a Europa consegue ser um pilar que garante a prontidão necessária, mesmo quando o centro político em Washington estiver distraído, dividido ou tentado a condicionar o compromisso?”. A Europa tem de olhar para isto sem dramatismos, mas também sem ingenuidade. O vínculo transatlântico é “quase vital”, mas temos de ter alternativas para o caso de quebrar. Se queremos que ele permaneça sólido, pelo menos temos de o tornar menos assimétrico.
É aqui que entra a questão da Gronelândia. A Gronelândia é um território autónomo no Reino da Dinamarca e, por isso, é também um pedaço de Europa no tabuleiro do Atlântico Norte e do Ártico. Em 2026, este vasto território gelado, é o epicentro de uma possibilidade que devemos evitar a todo o custo: um “divórcio” político entre a União Europeia e os Estados Unidos a propósito de um território europeu. Seria um erro estratégico histórico, mas as últimas afirmações de Washington, levam a ponderar seriamente esta modalidade de ação. Seria um presente para Moscovo e para Pequim. No entanto, a simples reativação deste debate mostra como as fissuras entre aliados podem tornar-se elas próprias um vetor de risco, para o qual a União tem de estar preparada. É agora que o pilar europeu da NATO tem de mostrar a sua força.
A União Europeia tem de ser intransigente em duas dimensões ao mesmo tempo. Primeiro, intransigente na defesa do seu território e da soberania dos seus Estados-membros, sem ambiguidades e sem concessões que abram precedentes. Segundo, intransigente, também, na preservação da coesão transatlântica, porque nenhum adversário tem capacidade de derrotar a Europa e os Estados Unidos juntos, mas vários têm capacidade de nos enfraquecer se estivermos divididos. Em 2026, a tarefa política mais delicada é precisamente esta: afirmar limites com firmeza, sem cair na tentação do confronto dentro do campo dos países aliados da NATO.
O terceiro teatro é o Indo-Pacífico, que muitos continuam a tratar como distante. A repetição de exercícios chineses em torno de Taiwan, incluindo simulações de bloqueio, aponta para uma estratégia de coerção contínua: normalizar a pressão, testar a resposta americana e medir a reação internacional. Com o “exemplo americano”, a China pode muito bem concluir que tem “via verde” para avançar, e que o direito internacional já não tem apoio suficiente a nível internacional para ser um entrave significativo. A dependência de semicondutores avançados e de componentes eletrónicos críticos significa que um conflito no estreito de Taiwan se traduzirá em paragens industriais, degradação de capacidades militares e vulnerabilidade económica quase imediata. Uma Europa que fala de prontidão, mas ignora este cenário, omite a verdadeira questão: se a China invadir Taiwan, estamos preparados para suspender as trocas comerciais? Temos essa possibilidade real? Como vamos manter as nossas cadeias de abastecimento? ou simplesmente ignoramos?
Vale de Almeida alerta no seu livro para o perigo de um divórcio consumado e até traumático entre a Europa e os Estados Unidos, resultado da combinação explosiva do fator Putin-Trump-Xi: a ameaça russa à segurança e estabilidade europeia, o retraimento americano, e o desafio chinês global. A Europa não pode escolher apenas um destes teatros para responder. Tem de responder simultaneamente a todos, porque todos convergem na mesma equação estratégica: ou construímos capacidade de resposta autónoma, ou aceitamos a irrelevância, ou até a invasão.
O quarto teatro é o Sul, com o Sahel como epicentro. Em 2024, o Sahel representou 51 por cento das mortes globais relacionadas com terrorismo. A expansão de violência jihadista, a erosão de Estados e a competição por influência criaram um ambiente onde atores externos substituem rapidamente a presença europeia e onde as consequências chegam à Europa sob a forma de tráfico, pressão migratória e risco de projeção terrorista. A instabilidade no Sahel traduz-se, inevitavelmente, em pressão sobre a Europa. Não é novo, mas tem aumentado e carece de uma resposta.
Por cima de todos estes teatros existe um quinto vetor, transversal e decisivo: o espaço e o ciberespaço, a infraestrutura invisível da guerra contemporânea. Quem controla comunicações seguras, navegação por satélite, vigilância e dados, controla o tempo de decisão e a precisão das tomadas de decisão. E quem consegue aceder a redes, corromper cadeias logísticas, manipular informação ou bloquear infraestruturas críticas consegue, sem disparar um tiro, degradar a prontidão de um país inteiro. Em 2026, a Europa será menos testada por grandes manobras convencionais e mais por ataques à sua aparente “normalidade institucional”: satélites interferidos, sinais degradados, redes comprometidas, cabos e nós logísticos sob pressão. A pergunta central é se temos autonomia, soberania, redundância e capacidade de resposta para que o espaço e o ciberespaço não sejam mais uma vulnerabilidade para a Europa, a acrescentar a todas as outras?
Perante este quadro, 2026 tem de ser o ano da escolha de prioridades que são, ao mesmo tempo, militares e políticas. Diante da situação na Ucrânia, da pressão no Indo-Pacífico, da instabilidade ao sul e das tensões no Atlântico Norte, com o espaço e o ciberespaço interligando todas essas questões, a Europa será avaliada não tanto pelas estratégias e sanções que aplica, mas sim pela sua capacidade de prontidão e de ação. Num mundo de “divórcios”, a nossa tarefa é impedir que o próximo seja transatlântico, sem abdicar da defesa intransigente do território europeu. Vale de Almeida resume-o sem rodeios: “o divórcio das Nações não nos dá nenhuma garantia de segurança”, bem pelo contrário, enfraquece-as. A Europa precisa de demonstrar em 2026 que consegue atuar como uma potência de segurança e defesa, e não apenas se proclamar dessa forma.
